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Jul. 12th, 2009

(no subject)

Nossa, tou impressionado com o programa do Celso Portiolli. Parece que ele pega uma família com a casa bem velha, bem acabadona e reforma toda, transforma numa casa linda, bem decorada, tipo uma casa de classe-média-de-novela. E exibe as pessoas chorando de emoção, claro. Fiquei pensando no sangue frio desse cara. As pessoas chorando em volta e ele super tranquilo com aquela voz de radialista, apresentando o programa, sorrindo, criando suspenses, "vamos lá, dona Fulana, abra a porta da sua nova casa! Quer abrir comigo? Vamos lá, cinco, quatro, três, dois, um!".

Haja exploração da miséria.
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Enquanto eu revisava o post, ouvi a voz dele "Isso aqui veio da Europa! Ó-ó-olha só! Dá-dá uma olhadinha! Isso aqui veio da Europa!"
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Jun. 29th, 2009

(no subject)

i can no sleep
haunted by your pretty body.

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Jun. 26th, 2009

(no subject)

NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA, ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA, VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES.

— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e os demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
— Finado Severino,
etc...

— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
— Finado Severino,
etc...

— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
— Uma excelência
dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...

— ... dizendo é a hora da plantação.
— Ajunta os carregadores...
— ... que a terra vai colher a mão.

João Cabral de Melo Neto. Morte e vida severina. Fragmento.
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Jun. 22nd, 2009

Zygmunt BAUMAN. Em busca da política.

O quadro em que se insere todo o argumento desse livro é a idéia de que a liberdade individual só pode ser produto do trabalho coletivo (só pode ser assegurada e garantida coletivamente) Caminhamos, porém, hoje, rumo à privatização dos meios de garantir/assegurar/firmar a liberdade individual -- e se isso é uma terapia para os males atuais, é um tratamento fadado a produzir doenças iatrogênicas dos tipos mais sinistros e atrozes (destacando-se a pobreza em massa, a superfluidade social e o medo ambiente). [...].

O 'final da história' é a nova onda... )

Zygmunt BAUMAN. Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. p. 15-16.
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Jun. 17th, 2009

(no subject)

"Estou aqui por uma simples razão: para fazer um protesto veemente contra a intervenção da força policial no campus universitário. [Isso] é um atentado aos direitos mais sagrados que as pessoas têm de discutir, debater e agir sem nenhuma pressão do poder público."

Foi assim que Antonio Candido, 90, um dos mais importantes críticos literários do país e professor emérito da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP começou seu discurso ontem, em um ato de repúdio à repressão na universidade.

[...]

Folha de S. Paulo.
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Jun. 8th, 2009

"Dorival Caymmi falou pra Oxum"

Embora seja preciso considerar que no candomblé, do ponto de vista dos que nele creem, essas divindades se manifestem materialmente pela incorporação, me parece fantástico que Dorival Caymmi tenha se tornado a tal ponto representante das culturas baiana e afro-brasileira que se tenha feito uma música em que ele é o interlocutor com o Orixá.


Letra


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Jun. 5th, 2009

(no subject)

Na sala da quinta série (sexto ano) da escola em que dei aula essa semana, tinha um menino com muita dificuldade para fazer a atividade. Passei as duas aulas (quarta e hoje) tentando ajudá-lo a elaborar as questões necessárias e tudo isso. Hoje, percebi com mais clareza que os outros colegas o excluem muito, uma implicância sistemática. Por exemplo, ele estava fazendo sozinho a atividade em dupla, o que inicialmente me pareceu uma contingência, mas que depois percebi ser fruto de uma exclusão mesmo. Por fim, me despedi e dei lugar ao professor de inglês. Eu ainda estava na porta da sala quando ouvi o professor se dirigindo ao tal aluno: "Eu tou dando aula pra um menino ou pra um porco?!" E o menino se agachou e começou a juntar o material que tinha caído.

Quando fui falar com a pedagoga (sobre o aluno, nem cheguei a mencionar a atitude do professor), ela disse que "ele é assim mesmo", que "é muito difícil", que "já falei com os pais, mas não tem jeito ele tem umas atitudes tão--" e fez um gesto de quem diz "malucas", "perdidas"...

explicações desnecessárias... )

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May. 31st, 2009

(no subject)

Eu peguei um ônibus hoje no Centro de Vitória para o Terminal de Jacaraípe -- uma viagem de uma hora e meia. Nem dez minutos depois, chegou um cara desdentado e sem camisa, aspecto de morador de rua, pedindo ajuda, dizendo que estava desempregado. Um dos passageiros engrossou com ele e começaram a discutir, o passageiro dizendo "Foi você que roubou meu celular no Terminal de Laranjeiras, eu lembro da sua cara!". No ponto seguinte o mendigo-possível-ladrão desceu. Cerca de dois pontos depois, entrou um surdo distribuindo adesivos de religião e de futebol com um bilhetinho ATENÇÃO! SOU SURDO, ME AJUDE POR FAVOR. CADA ADESIVO CUSTA APENAS UM REAL. Quando ele desceu entrou um rapaz vendendo paçoca e jujuba, o preço era bom e eu comprei (sete paçocas por um real). O mesmo cara quis discutir com o vendedor de paçoca: "Não foi você quem roubou meu celular no Terminal? Foi você sim!" , ele ignorou e desceu do ônibus. Ainda antes de chegar ao Terminal de Laranjeiras (aí por uma hora de viagem), entrou um rapaz que começou a cantar com voz atrapalhada e balbuciante algo quase irreconhecível, mas que parecia uma música religiosa. Depois, sem conseguir articular bem nenhuma frase fez um discurso do qual eu entendi "ajudá ajudá um real eu". O ônibus chegou ao Terminal, algumas pessoas desceram, outras subiram. Logo depois o rapaz balbuciante voltou a cantar e a esmolar, enquanto outro vendia "barrinha de chocolate Snack a um real, tem chocolate branco, preto, misto e recheado com amendoim".

Eu nunca vi o ônibus tão cheio de vendedores e mendicantes. É a crise na prática.

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May. 16th, 2009

(no subject)

Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como amo Fulana.

Amarei mesmo Fulana? )


Drummond. O Mito. In A Rosa do Povo.
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May. 8th, 2009

(no subject)

sofrimento não é amargura
tristeza não é pecado
lugar de ser feliz não é supermercado




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Apr. 14th, 2009

(no subject)

Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujours

Eu nunca te disse que te amaria para sempre
Oh, meu amor.
Você nunca prometeu que me adoraria
Por toda a vida.
Nunca trocamos tais juras.
Ao me conhecer, ao te conhecer,
Nunca acreditaríamos ficar para sempre presos pelo amor,
Nós que éramos tão inconstantes.

p'tit à p'tit )

Trilha original do filme Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard.
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Apr. 12th, 2009

John Stuart Mill. Sobre a Liberdade. 1859.

Não pretendo que o mais ilimitado uso da liberdade para enunciar todas as possíveis opiniões ponha termo aos males do sectarismo religioso ou filosófico. [...] No entanto, essa colisão de opiniões produz seus efeitos salutares não sobre o partidário apaixonado, mas sobre o espectador mais calmo e desinteressado. O mal a temer não é o conflito violento entre partes da verdade, mas a supressão silenciosa de parte dela. Sempre há esperança quando as pessoas são obrigadas a ouvir os dois lados; é quando atentam apenas para um deles que os erros consolidam-se em preconceitos [...].




John Stuart MILL. A Liberdade; Utilitarismo; tradução de Eunice Ostrensky. Martins Fontes: São Paulo, 2000.
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Apr. 7th, 2009

Fernando PESSOA. Livro do Desassossego

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.

Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam, [...]

Tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa da minha sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho defeitos.

Nem com pintar esse vidro de sombras coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olhá-la, do outro lado.

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.

Eu não me queixo pelo mundo. Não protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me, mas não sei se o que há de geral é o sofrimento nem sei se é humano sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?

Eu sofro, não sei se merecidamente. (Corça perseguida.)
Eu não sou pessimista, sou triste.



F. Pessoa; B. Soares. Livro do Desassossego, trecho 127.
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Apr. 5th, 2009

(no subject)

O melhor momento da manifestação de sexta (à qual, exagerando, compareceram quinze pessoas) foi o diálogo de um dos caras que tocava no nosso palco livre com o guarda que nos expulsou.

-- É fácil você vir aqui com uma arma na cintura expulsar a gente.
-- Rapaz, o que é isso na sua mão?
-- Isso aqui é só um instrumento musical.
-- Então, isso aqui é só um instrumento de tiro, isso não quer dizer nada pra mim.
-- Ah, mas pra mim isso quer dizer muita coisa...

" um instrumento de tiro" vai entrar para os anais da Ufes. Como diria o malvadinho, "um revólver é um argumento forte, mas um fuzil é uma verdade científica".


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Apr. 1st, 2009

Cornelius CASTORIADIS. A instituição imaginária da sociedade.

Como prevalecem as sociedades, como asseguram sua validade efetiva? Superficialmente, e em alguns casos, somente através da coerção e das sanções. Menos superficialmente, e mais amplamente, através da adesão, do apoio, do consenso, da legitimidade, da fé. Mas, em última análise, por meio e através da formação (fabricação) da matéria-prima humana em indivíduo social, no qual elas e os mecanismos de sua perpetuação estão inseridos. mais... )

Cornelius CASTORIADIS. O Domínio Social-Histórico. In: Os Destinos do Totalitarismo & outros escritos. Porto Alegre: L&PM Editores, 1985. p. 28-29.
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Feb. 3rd, 2009

Norberto BOBBIO. Liberalismo e Democracia.

Francesco De Sanctis (1817-1883) “interpretava a escola liberal como aquela que havia rejeitado a liberdade como fim último, da qual se haviam feito divulgadores os filósofos do século XVIII, mestres da revolução, e se contentara com a liberdade como meio ou como método ou ‘procedimento’, com a liberdade apenas formal, da qual cada um podia servir-se para os próprios fins. [...] Ao contrário, entendia a escola democrática como a que era inspirada pelo ideal de uma nova sociedade ‘fundada na justiça distributiva, na igualdade de direitos, a qual, nos países mais avançados, também é igualdade de fato’, e para a qual a liberdade não era apenas procedimento ou método mas ‘substância’. E precisava: “Onde existe desigualdade, a liberdade pode estar escrita nas leis, no estatuto, mas não é coisa real’”.



BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 74-75.
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Jan. 10th, 2009

(no subject)

Minha irmã atende o telefone, -- Oi, tia. Quebrou? O quê? Hum... Vários pedaços? Calma... Quantos pedaços? Dois... então foi a bateria que soltou, tia. Não, não está quebrado. Calma, eu conserto seu celular quando chegar...






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Jan. 9th, 2009

(no subject)

Pequeno léxico de palavras incompreendidas.
 
A Força.
 
Na cama de um dos muitos hotéis em que haviam feito amor, Sabina brincava com o braço de Franz: -- É incrível como você é musculoso.
Esses elogios lhe agradavam. Levantou-se da cama e suspendeu pelo pé, lentamente, uma pesada cadeira de carvalho. Ao mesmo tempo dizia a Sabina:
-- Você não tem nada a temer, posso defendê-la em qualquer circunstância. Em outros tempos fui campeão de judô. Conseguiu levantar o braço na vertical sem largar a cadeira e Sabina disse: -- É bom saber que você é tão forte!
No entanto, em seu íntimo, acrescentou isto: Franz é forte, mas sua força é voltada unicamente para o exterior. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é fraco. A fraqueza de Franz de chama bondade. Franz jamais daria ordens a Sabina. Nunca mandaria -- como Tomas fizera em outros tempos -- que ela ficasse inteiramente nua em cima de um espelho e se pusesse a andar de um lado para o outro. Não que lhe falte sensualidade, mas ele não tem força para comandar. Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência. O amor físico é impensável sem violência.
Sabina via Franz andar pelo quarto carregando bem alto a cadeira. A cena parecia-lhe ridícula e a enchia de estranha tristeza.
Franz largou a cadeira e sentou-se, o rosto virado para Sabina.
-- Não é que eu não goste de ser forte -- disse --, mas de que me servem estes músculos em Genebra? Carrego-os como um enfeite. São as plumas do pavão. Nunca quebrei a cara de ninguém.
Sabina continuava com suas reflexões melancólicas. E se ela tivesse um homem que lhe desse ordens? Que a dominasse? Quanto tempo ela o teria suportado? Nem cinco minutos! Donde concluiu que nenhum homem lhe convinha. Nem forte, nem fraco.
Disse: -- Por que de vez em quando você não usa sua força contra mim?
-- Porque amar é renunciar à força -- respondeu Franz docemente.
Sabina compreendeu duas coisas: primeiro, que essa frase era bela e verdadeira. Em segundo lugar, que, com essa frase, Franz acabara de excluir-se de sua vida erótica.

Milan KUNDERA. A insustentável leveza do ser.
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Dec. 17th, 2008

(no subject)

As cervejas que coloquei na gaveta da geladeira ainda estavam quentes... na verdade, sei lá, frescas. Aí, coloquei duas no congelador e, dez minutos depois, tirei a da esquerda e coloquei uma "quente" no lugar dela. Pensei: depois, tiro a da direita. Tirei a da direita e coloquei uma "quente" no lugar dela. Pensei: depois tiro a da esquerda. E assim por diante até que, não sei por que, a da direita congelou.






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Nov. 7th, 2008

Hayden WHITE. O texto histórico como artefato literário

Dizer que conferimos sentido ao mundo impondo-lhe a coerência formal que costumamos associar aos produtos dos escritores de ficção não diminui de maneira nenhuma o status de conhecimento que atribuímos à historiografia. Só o diminuiria se acreditássemos que a literatura não nos ensinou algo acerca da realidade, por ter sido o produto de uma imaginação que não era deste mundo, mas de outro, de um mundo inumano. A meu ver, vivenciamos a "ficcionalização" da história como uma "explicação" pelo mesmo motivo que vivenciamos a grande ficção como iluminação de um mundo que habitamos juntamente com o autor. Em ambas reconhecemos as formas pelas quais a consciência constitui e povoa o mundo que ela procura habitar confortavelmente.



Hayden WHITE. O texto histórico como artefato literário. In:_____. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 2001. p. 115-116.
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